Opressão X Voyeurismo

Publicado: 16/08/2009 em Críticas

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Em épocas que mais um Reality Show aflora em nossas casas através da TV – A Fazenda -, cabe aqui uma avaliação dos valores e mudanças do mundo, tendo como “foco de estudo” os Reality Shows, em especifico o pioneiro Big Brother Brasil, desde sua essência inicial no livro 1984 de George Orwell até os dias atuais no programa apresentado na Rede Globo. O que mais chama a atenção ao longo deste período é a inversão do sentido do “Big Brother” (Grande Irmão), onde o temor do totalitarismo que exercia poder sobre os governados, traumatizava o mundo e o dividia em dois blocos opostos (criação do Big Brother como representação do terror constante) hoje se transformou em um tipo de sedução pela invasão da privacidade, na qual as pessoas se apresentam para serem vigiadas e controladas dentro de um tubo de ensaio, e mais, estas pessoas que entram anônimas, saem famosas justamente pelo fato de terem permitido esta invasão. O aspecto do terror da vigilância deu lugar a apoteose voyeurista.

Enquanto em 1984 não havia espaço para nenhum tipo de singularidade (o único a se destacar era o grande Irmão, apesar de todos só o verem de maneira estática), hoje com a cultura de massa há a busca incessante de singularizar-se, destacar-se das massas, o que não é diferente no BBB já que os participantes cultuam a personalidade, ansiosos por um dia se tornarem famosos, ídolos e não como obediência cega ao líder imposto, como era em 1984.[…].

A personalidade anônima, “ordinária”, “sem talento”, comum passa a ser cultuada em sua ausência de singularidade. A intimidade banal torna-se objeto de fascínio no universo da cultura de massa. A questão da privacidade. Nos tempos de Big Brother Brasil surgiu um novo tipo de privacidade, aquela inventada pelos participantes do programa para ser exibida ao publico; essa nova privacidade é a dos que mesmo no privado não podem escapar ao olhar do público, uma privacidade estranha onde o espontâneo do gesto secreto desaparece, já que não pode haver gesto secreto, é o meio caminho entre o intimo e o aberto. Este novo conceito causa contradições, pois o sujeito encontra-se impedido de cumprir a ordem na medida em que cumpri-la é descumpri-la: se obedeço sendo espontâneo, não estou sendo espontâneo. Não tem como viver “naturalmente” sabendo que você está sendo avaliado a todo momento. Assim, os “brothers” constroem uma privacidade calculada, quanto mais espetacular melhor, pois garante maior sobrevivência no jogo, uma privacidade na qual o principal objetivo é agradar ao publico. Bem como a privacidade é a ética que regula os atos dos participantes, onde a única coisa que se leva em consideração é a sobrevivência. Estes novos conceitos trazem problemas para a sociedade, pois o homem passa a acreditar e a querer viver de acordo com o que vê passando no programa, passa então a agir e a pensar em seu cotidiano como se estivesse nas mesmas condições dos participantes do BBB, deixando muitas vezes de lado seus próprios princípios.

Outro aspecto de suma importância a ser abordado é a questão do controle exercido pelos reality shows sobre o público, controle este inserido de modo sutil e indireto e não mais de maneira violenta e física, tornando-nos Os Pequenos Irmãos. De acordo com o pensamento de Foucault esse controle se dá sobre a produção da sociedade, pois é muito mais fácil controlar uma população “formando-a” para pensar de acordo com o sistema social dado do que deixando que se forme a seu modo e punindo-a a cada vez que comete um desvio. Os meios de comunicação de massa desempenham um forte papel nessa “formação”, nessa propagação de um modo de viver e de pensar, nessa formação de nossa visão de mundo e de nossa sensibilidade”. Seria então o Reality Show uma forma de controle sobre os públicos a fim de estabelecer uma Agenda, ditando o que pensar mas acima de tudo ditando sobre o que pensar. Pois o programa passa a ser discutido e vivenciado no dia-a-dia. A agenda da imprensa virou a agenda do publico[…] os meios de comunicação de massa, embora não sejam capazes de impor o que pensar, são capazes de influenciar o que pensar e falar. A agenda da mídia de fato passa a se constituir também na agenda individual e mesmo na agenda social. É plausivel também levantar a polemica do “pensamento critico” do Brasileiro, que estaria sendo cada vez menos usado e quando usado é em momento errado, sobre banalidades oferecidas, ou seja, onde é impossível tê-lo, deixando muitas vezes de discutir um problema social do mundo para debater um acontecimento do Big Brother Brasil. Essa característica, encarada como problema se dá a partir do momento que falta uma Ideologia a ser propagada por esse tipo de programa, pois se vê liberto de qualquer instigação que leve o publico a pensa em “guerra e paz” ou “liberdade e escravidão” por exemplo. Não se imagina a necessidade de uma população completamente critica, mas também não uma totalmente livre de tal pensamento. Com isso vemos a cada dia surgir um herói, muitas vezes vazio por si só. É onde se encontra o papel da mídia nessa “construção”no entando não pelo aspecto geralmente levantado de que a mídia cria um herói de qualquer jeito e o impõe sobre a sociedade para que a população apenas o aceite e o siga, mas também não de maneira apaixonante como se pensava no inicio… Por trás deste processo há todo um trabalho de “acordo” com as características e necessidades de certa sociedade (o que a sociedade espera de um herói), e o herói já tem que trazer em sua essência algo que o permita ser moldado como tal, pois a mídia não possui base para simplesmente inventar um passado, criar um ato e desenvolver um caráter de guerreiro sobre o mito-herói e por ultimo a sociedade precisa ser carente em algum aspecto para que possa aceitar a entrada de um herói em seu cotidiano. Em se pensando a mídia nos dias de hoje chego à conclusão de que o foco na construção do herói foi mudado, enquanto antigamente se pensava mais em construir super heróis, com super poderes e coisas do tipo, hoje se pensa em elevar pessoas comuns através da superexposição, da apresentação de suas ações ditas politicamente corretas (como astros pops da musica e jogadores de futebol) e que com isso acabam por ganhar bastante dinheiro e conseguir a tão sonhada vida luxuosa e com regalias, mas que não deixam de servir de alguma maneira a sociedade, os chamados pelo povo de ídolos. Seja de modo a terem se preparado para isso ou simplesmente terem sido eleitos para tal, esses heróis da sociedade moderna não perderam as características básicas dos heróis de todo sempre, dá-se ênfase na infância sofrida, no abandono, superdimensiona seu esforço para vencer e exalta suas benfeitorias.

A sociedade moderna é uma sociedade de essência “midiatizada”, não sendo portanto, nem a sociedade e nem a mídia autônomas pois uma precisa da outra. Nos Programas de Reality Show, que como já se pode notar não são tão realidade assim, o herói é aquele de bom caráter, que é perseguido, tem um passado duro, faz o jogo da política da boa vizinhança e consegue chegar até o final do jogo. Ex: Grazi, Cida, Thiago, Jean e BamBam, Barbara Paz e etc… Acredito que o trabalho da mídia não seja nada mais do que o preenchimento do vazio criado no homem a partir do momento em que ele é apresentado à possibilidade de adquirir controle sobre a natureza, momento em que nós homens passamos a acreditar que somos intelectuais, donos de nossa própria mente é então que caímos no vazio, em uma armadilha, e que só saímos com o auxilio de alguma coisa ou de alguém, o herói. Este processo se dá pela cultura de massa, que retira do homem sua capacidade de pensar por si próprio, buscando sempre no externo uma forma de se completar, alguém que seja aquilo que se desejamos ser. Acredito ainda que esse preenchimento seja feito de acordo com a carência da sociedade e que ela própria finda por fabricar seus heróis ou parte deles, sejam eles na política, nas histórias, nos quadrinhos, no cinema ou ainda no esporte. Este último talvez seja o que mais carrega seus seguidores, por permitir que eles vejam o auge do seu suor, da sua luta para agradá-los, a tirar Por exemplo o número de pessoas que defendem e seguem Kaká, Daiane dos Santos, Ronaldinho e o já consagrado Pelé. Mas esses pelo menos trazem algum motivo para assim serem tratados, já os outros…. Enquanto o povo seguir alienado a esse tipo de programa, veremos e teremos enxurradas mais desse tipo. Cada dia pior. Tendo que assistir a “brilhante” batalha entre Globo e Record, onde, diferente de outros tipos de disputa, só o publico sai perdendo.  Pode-se constatar isso ao ver um, apenas um episódio do novo programa da Record, além de baixa qualidade é cópia “barata”(apenas jeito de falar, porque até que foi bem carinho) de outros já existentes. O que estão achando que o povo é?(Se é que de fato não é.)

Francamente….

Por Thiago Ornelas

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comentários
  1. Nayla disse:

    Entre representação e realidade, vão surgindo os desafios para a evolução positiva do ser humano. Tudo depende de nossas escolhas. Dominadores e submissos – conscientes ou inconscientes. Mesmo os ignorantes, aqueles que não têm estudo, percebem no seu íntimo coisas grotescas e descabidas. Comportamento e índole serão sempre os formatadores de mídias e sociedades.

    • nos4 disse:

      …Infelizmente a sociedade não está preparada para a evolução do mundo.
      Obs: Mais do que de maquinas, precisamos de mais humanidade.